domingo, 19 de junho de 2011

GONÇALÓPOLIS

FM-316 GONÇALÓPOLIS


Gonçalópolis é cidade imaginária, quase-mar, quase sertão, minúsculo ponto no mapa nordestino, no qual trens já passaram e aviões nunca chegaram. De quando em vez era sobrevoada por um helicóptero de endinheirado visitante, quando o mesmo mantinha negócios com o prefeito de da época. Negócios tidos como maracutaias, levantando especulações e suspeitas da parte dos adversários. Nunca apuradas e que, portanto, deram em nada.

Gonçalópolis dispõe de uma emissora de rádio cuja grade conta, entre outros, com transmissões de missas e ave-marias e programas de conteúdo direcionado. Nos anos 90, após longa demanda, a Igreja conseguiu reaver a direção da emissora, que se encontrava em poder um grupo que dela se servia em proveito próprio. Passou-se o tempo, a direção maior voltou às suas origens, mas a emissora em si, não mudou. Mudaram apenas os que dela se valem.

Coisas de Gonçalópolis onde, na quase regra nacional, a ética e os bons princípios parecem ter sido jogados para debaixo do tapete. Onde os que se envolvem na política são capazes de vender suas almas ao diabo por duzentos votos. Onde repórteres, que se aventuram à condição de comentaristas, são capazes de aceitar, como presente, uma motocicleta oferecida pelo gestor da Comuna.

Que condições teriam os primeiros de se posicionarem contra os garantidores de seus votos? Que independência os segundos, de fazer comentários outros, se não elogios, ao prefeito?

Em Gonçalópolis, por serem os programas radiofônicos políticos terceirizados, mais vale a força da grana. Na mídia não há lugar para opiniões que não rezem pela cartilha dos patrocinadores indiretos. Ou compram um horário, ou ficam fora da mídia. E quando é aberto algum espaço, via ocasionais entrevistas gravadas, o “comentarista”, dispondo de todo o tempo do mundo, cuida de neutralizar, às vezes até achincalhando, as declarações dos entrevistados, transformando-as em gancho para proselitismo em favor dos que custeiam os programas e dos respectivos pré-candidatos às próximas eleições.

Os gonçalopolitanos sem acesso pleno à mídia radiofônica, não têm sequer o direito de informar a população, via carros de som. Logo após, num de tais programas são chamados por um dos membros do tríplice poder reinante, de “caras de pau” e seu partido político é classificado de forma pejorativa como “determinada facção”.

Coisas de Gonçalópolis onde parece não ser benquista a decantada liberdade de imprensa. Onde a rádio católica não mostra à população a importância do trabalho social desenvolvido pela própria Igreja em favor da sociedade. Trabalho este de uma dimensão admirável seja através dos Encontros de Casais com Cristo, seja através das diversas Pastorais, seja no campo da recuperação de dependentes químicos. A emissora deixa de potencializar tal trabalho, usando-o como poderosa ferramenta indicativa dos caminhos a serem trilhados para se atingir uma transformação social, em favor dos mais necessitados. As pregações dominicais não bastam.

Gonçalópolis tem coisas que até Deus duvida. Houve tempo, não muito distante, no qual os veículos prestadores de serviços à saúde pública, alugados, eram plotados com sorridentes fotos de um médico benfeitor. Dizem as más-línguas do lugar, que as receitas prescritas pelo citado esculápio, tinham também impressa sua foto. Recuso-me a acreditar que isto haja acontecido. A adotar-se tal inusitada forma de difusão de imagem, melhor seria que em lugar de receitas, que só servem a doentes, se recorresse ao papel higiênico. Afinal, este todo mundo usa.

Na imaginária Gonçalópolis as justificativas para os requerimentos dos edis, dirigidas ao Executivo, nunca se amparam em dados técnicos ou estatísticos, nem em um mínimo de estudo formal à luz do Orçamento Municipal. Na quase totalidade dos casos, se contentam em dizer que visam atender pedidos da população. E mais. Em Gonçalópolis reina uma espécie de silencioso acordo entre os vereadores, segundo o qual os mesmos, não costumam questionar as justezas das demandas de seus pares. Aprovam-nas sempre. Numa unanimidade que às vezes cheira a descaso, desinteresse ou temor de terem questionadas, em represália, suas eventuais solicitações futuras. Em Gonçalópolis a Câmara não se detém sobre a execução do Orçamento Municipal, nem publicamente o discute. Se o faz deve ser a portas fechadas. Também pudera! Os poucos vereadores que, raramente, se dispõem a examinar as contas da Comuna, não têm sequer o direito de tirar cópia xerox ou fotográfica da papelada, quando em visita ao Tribunal de Contas dos Municípios. Muito menos de se fazerem acompanhar por um assessor afeito à leitura de documentos contábeis. Parece piada, mas não é. Portanto, se o vereador não for contador ou técnico no tema – coisa que não é obrigado a ser – ante tantas limitações, é simplesmente levado a deixar de exercer seu papel fiscalizador. Fiscalização que, no fundo, parece não interessar a ninguém.

Gonçalópolis é uma das muitas cidades onde prefeitos reinam, onde prefeitos com contas rejeitadas podem governar sob liminares judiciais, mantidas à custa de altos honorários advocatícios pagos com o dinheiro dos cidadãos.

Lá, mesmo eventuais escancarados escândalos na administração municipal, não podem ser perfeitamente controlados. Houve o caso de um gestor público que, poucos dias de governo, pagou mais de R$ 100 mil a título de combustíveis. Deu em nada.

Em Gonçalópolis determinado prefeito faz um quiosque numa praça (os prefeitos gonçalopolitanos adoram praças) e o outro, que lhe sucede, desmancha a obra. No mesmo local, constrói a mesma coisa, apenas com distinto molde arquitetônico. E, tudo bem. Outro prefeito faz uma praça nova, com fonte-lago luminosa. O que lhe sucede, faz da fonte-lago um túmulo, entulhando-a e plantando flores no local. E, tudo bem. E o bom-senso, o velho bom-senso do protesto, que deve nortear as pessoas em geral, em especial as que são eleitas para representá-las, fica amordaçado. Por que reclamar se, a verdade deve ser dita, os representantes eleitos “dependem” dos prefeitos para terem suas solicitações atendidas? Tais submissões, visão caolha e falta de compromisso, enfraquecem a democracia, induzindo a um populismo centralizado nos chefes do Poder Executivo que tudo resolvem, tudo decidem, pouco delegam. Agem domesticamente, como se a prefeitura fosse suas próprias casas.

Acho até que, em Gonçalópolis, os vereadores ganham pouco. Valor que não chega a sete salários mínimos para, afora participarem das reuniões semanais, cumprirem seus papéis de legislar, fiscalizar e propor políticas públicas. Se, de fato, cumprissem integralmente tais papéis, até aí estaria tudo bem. Acontece que o bicho pega quando os vereadores têm que se virar, que nem bolacha em boca de velho, para satisfazer os inacabáveis pedidos da população gonçalopolitana acostumada a receber favores individuais dos políticos o tempo inteiro. Culpa deles mesmos que, na maioria dos casos, praticam campanhas eleitorais deformadas. É um nunca acabar de rodadas de cervejas, medicamentos, rifas, transporte de doentes (acreditem, eu disse transporte de doentes), presentes de aniversários e casamentos, gás de cozinha, contas de água e energia elétrica, festas do dia das crianças, dos pais, das mães, um rosário sem fim para o qual, haja dinheiro!

Assim são a vida e a democracia de Gonçalópolis. A subserviência mantida à custa do dinheiro dos contribuintes. Atrever-se conta o sistema, quem há de?

Momentos há em que penso bom seria se o nome da minha cidade de São Gonçalo dos Campos fosse mudado para Gonçalópolis. Depois, dispenso o pensar.

Ai de nós fôssemos gonçalopolitanos. Ainda bem que somos são-gonçalenses.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

FM 315 - Adeus, Ano Novo

Em minha crônica anterior ao citar os versos “a gente não quer só comida, a gente quer diversão e arte”, fiz referência a Gonzaguinha, dando a entender seria seu autor ou intérprete. Atenta leitora do Recife, uma das minhas noras por sinal, alertou-me ser a letra da canção “Comida” de autoria de Marcelo Fromer, Arnaldo Antunes e Sérgio Brito, interpretada pelos Titãs. Portanto, meu público agradecimento à nora pernambucana.

Devo dizer que música nunca foi meu forte, nem minha vocação. Lembro-me que em 1954, ano da morte de Getúlio Vargas, estudando no Colégio São Francisco na cidade de Rio Grande, tínhamos uma disciplina denominada Canto Orfeônico. Entre outras coisas, havia os ditados musicais. Lá vinha o mestre marista, de batina preta, ditando para que registrássemos numa pauta, clave de fá, si bemol, ré sustenido, e por aí seguia a cantilena. Tínhamos que saber solfejar. Sofria horrores. Tanto quanto se hoje, tivesse que ser submetido a um ditado em grego, hebraico ou mandarim.

Confesso ter sido a única matéria na qual eu recorria à famosa “cola”. Cola que me evoca quadrinha então na moda: Escola, sem “es” é cola; escola sem cola não há; tirando a cola da escola; a turma não passará.

Portanto, entre minhas limitações muitas, sempre fui péssimo em assuntos ligados à música. Por isso as desculpas a meus leitores e leitoras, por haver confundido Gonzaguinha com os Titãs.

E já que o tema é música, avancemos. Não nutro simpatias por todos quantos levem música aos ouvidos do povo. Não, não me refiro aos que são intérpretes ou a aos que tiram acordes de instrumentos musicais. Não nutro simpatias por certa classe de políticos, hábeis no manejo “musical” das palavras, dizendo ao povo o que o povo gostaria de ouvir, não se importando se irão, ou não, cumprir suas entoadas promessas.

Dá-me um certo gosto masoquista ouvir tais cidadãos, quando inquiridos sobre seus pretensos rumos, ficar em cima do muro, aguardando a direção dos ventos para no derradeiro instante, apoiar o candidato que terá maiores chances de vencer.

Na Bahia de Todos os Santos, de Todos os Mistérios, de Todas as Crenças, de Todos os Charutos, vem sendo assim. Os oportunistas de carreira, não pertencentes ao partido político do atual Governador, candidato à re-eleição, elogiam-no e, ao mesmo tempo, acendem velas e incensos a outros contendores. O quadro, aqui na minha querida São Gonçalo dos Campos, não foge à regra.

Espertos como eles só, na orquestração da caminhada, compõem-se agradando a uns e a outros. Na hora “H”, dentro dos limites impostos pela legislação eleitoral, ouvidos os ibopes da vida, descambam com armas, bagagens, currais e paus-mandados para a banda do virtual vencedor, intitulando-se aliados da primeira hora.

Senhores que só aceitam opiniões por si ditadas costumam chamar de “caras de pau” aos que, politicamente, não rezam por suas cartilhas. Compreende-se. Ao dizê-lo estão se mirando nos espelhos de suas próprias vidas.

Valem-se dos dinheiros havidos pela dominação e pelo senhorio para se manterem na crista da onda junto ao poder. E o povão, que se informa pelas mídias por eles controladas, acha-os maravilhosos. E neles vota, perpetuando o esquema de subserviência. Até quando?

Do jeito como as coisas andam, ao menos para os que almejam que o novo ano seja ano de transformações e separação do joio do trigo, ao soar a meia noite do próximo 31 de dezembro, em vez do tradicional Adeus, Ano Velho, melhor será dizer-se Adeus, Ano Novo.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

FM 314 - Feliz Natal Básico


São Gonçalo dos Campos, contrariando a regra cultural da civilização cristã, não se iluminou, nem se engalanou neste Natal. Quem frequenta as noites são-gonçalenses deste final de ano, ao menos até agora, não é brindado com as festivas luzes, cores e símbolos que costumam despertar na cidadania, sentimentos de paz e de fraternidade.

A ausência das emblemáticas manifestações alusivas à data faz pairar no ar certa sensação de desencanto e vazio no espírito coletivo. É como se estivesse faltando algo. Cessa tudo.

Em contrapartida o Governo Municipal ao não investir na decoração natalina, optou por distribuir 4 mil cestas básicas, certamente para a população de baixa renda, mais necessitada. Uma inédita medida que não preenche o vazio acima aludido posto que, para tudo na vida, há um tempo certo. Já imaginaram se todas as cidades brasileiras que se ornam para o Natal, adotassem igual procedimento?

Neste momento, aqui no meu recanto de meditações, meu charuto-companheiro me indaga quanto à justeza da iniciativa, anunciada em singelas placas colocadas nos dois principais acessos da cidade, levando-me a algumas ponderações.

Quatro mil cestas básicas, em tese correspondem a quatro mil famílias. Quatro mil famílias, tomando-se como base quatro membros por família, significa que, indiretamente, algo ao redor de 16 mil pessoas serão brindadas com o inusitado presente natalino.

Por outro lado, considerando-se que somos cerca de 32 mil são-gonçalenses, sou levado a concluir que metade de nossa população se encontra na faixa limiar da pobreza, assim fazendo jus ao recebimento de uma cesta básica. Tudo bem! Vá lá que seja! Somos pobres mesmo.

Agora, fica a indagação sobre a composição e respectivo valor da cesta básica municipal para que os cidadãos possam tomar conhecimento do montante investido, em substituição aos gastos com a decoração da cidade. Espera-se também, a título da transparência das contas públicas em dias de modernidade, que se publique em mídia eletrônica, a relação das quatro mil famílias beneficiadas e que, sejam quais forem os resultados da medida, isto não vire modismo.

Os gastos com a cultura de um povo podem parecer supérfluos ou desnecessários, mas não o são. Um povo sem cultura é um povo sem identidade. Como diria o saudoso Gonzaguinha, “a gente não quer só comida, a gente quer diversão e arte”.

Este ano, portanto, fujo à regra e seguindo o que acontece por aqui, desejo a todos os que me lêem um Feliz Natal Básico.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

FM 313 - Colar de Inspirações

A autora intitulou “Pérolas da MPB”. Eu intitularia “Fumaças mágicas da MPB”. De fato não é outra coisa.

Luzia Cedraz Pessoa, aqui de São Gonçalo dos Campos, amante da boa música brasileira, tanto quanto eu aprecio os bons charutos baianos, garimpou 48 versos entre os mais inspirados do nosso cancioneiro. Juntou-os num pequeno opúsculo para obsequiar amigos. Presente inesquecível. Tanto que me permito, com a devida autorização da pesquisadora, dividi-lo com os que amam as fumaças dissipadoras dos limites e delas fazem passaporte para momentos inesquecíveis.

Como afirmou Luzia na apresentação do seu trabalho, “a magia dos letristas que Deus nos presenteou com seus talentos” nos faz evocar momentos da vida, amores, ilusões, esperanças.

Selecionei vinte versos de distintos autores. Ei-los.

1. Tire seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor. (“A flor e o espinho” – Nelson Cavaquinho).

2. Detalhes tão pequenos de nós dois são coisas muito grandes para esquecer. (“Detalhes” – Roberto e Erasmo Carlos).

3. As rosas não falam. Simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti. (“As rosas não falam” – Cartola).

4. Viver e não ter a vergonha de ser feliz. (“O que é o que é” – Gonzaguinha).

5. Quem sabe faz a hora não espera acontecer. (“Pra não dizer que não falei de flores” – Geraldo Vandré).

6. Hoje eu quero paz de criança dormindo. (“A noite do meu bem” – Dolores Duran).

7. Você é isso, parto de ternura, lágrima que é pura, paz do meu amor. (“Paz do meu amor” – Luiz Vieira).

8. Tem dia que a gente se sente como quem partiu ou morreu. (“Roda Viva” – Chico Buarque).

9. Mas a lua furando nosso zinco salpicava de estrelas nosso chão. (“Chão de estrelas” – Orestes Barbosa).

10. Me esqueci de tentar te esquecer, resolvi te querer por querer. (“Outra vez” – Izolda).

11. Fez nascer a eternidade num momento de carinho. (“Foi Deus que fez você” – Luiz Ramalho).

12. E quantos sonhos se tornaram esperanças perdidas. Que alguém deixou morrer sem ao menos tentar. (“Esperanças perdidas” – Adeilton Alves e Décio Carvalho).

13. Viver é melhor que sonhar. (“Como nossos pais” – Belchior).

14. Amigo é feito pra se guardar debaixo de sete chaves. (“Canção da América” – Milton Nascimento).

15. Ando devagar. Porque já tive pressa. Levo esse sorriso. Porque já chorei demais. (“Tocando em frente” – Almir Sater e Renato Teixeira).

16. E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar. Sem pedir licença muda nossa vida. Depois nos convida a rir ou chorar. (“Aquarela” – Toquinho).

17. Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas. Da força da grana que ergue e destrói coisas belas. (“Sampa” – Caetano Veloso).

18. E assim adormece este homem. Que nunca precisa dormir pra sonhar. (“João Valentão” – Dorival Caymmi).

19. E aí me dá uma inveja dessa gente. Que vai em frente, sem ter com quem contar. (“Gente humilde” – Garoto e Vinícius de Moraes).

20. Se eu fosse você eu voltava pra mim. (“Pra você” – Silvio César).

Fumaças tão inspiradoras para mim, quanto o são as dos meus charutos.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

FM 312 - Famosos Baianos

Disponho de um acervo, ao qual denomino lítero-charuteiro, com algumas preciosidades, capazes de desvendar um pouco da história dos famosos baianos ainda não escrita. São folhetos, catálogos, listas de preços, boletins, que colecionei ao longo dos últimos trinta anos, muitos deles garimpados nos escaninhos das fábricas onde trabalhei. Outros há, fruto da minha atividade profissional, relatórios de viagens, balanços, planilhas de custos, atas de reuniões, estatísticas, fotografias, correspondências, folders, recortes da imprensa, reportagens, projetos, sonhos...

Um manancial de fatos e curiosidades sobre nossos charutos, à espera do momento certo para serem oferecidos aos pesquisadores e ao público leitor brasileiro. Tudo está devidamente embalado. Não só no sentido da embalagem como caixa, mas no significado de “embalar” ser o balançar carinhoso de um filho nossos braços, que é o que sinto ao manuseá-los. Mais ainda. “Embalar” também significa colocar balas. Deixar pronto para o disparo. Para deleite dos que apreciam se inebriar com as fumaças mágicas dos “rolinhos de satisfação”.

Enquanto isso volta e meia, na companhia do meu charuto, me comprazo em manusear tais páginas amareladas, retratos de pedaços da nossa história, esquecidos com o passar do tempo.

Neste instante, em momento de remexer saudades, debrucei-me sobre algumas de tais páginas da vida, ao buscar inspiração para escrever e sinto que continuo a testemunhar minha afeição pelos charutos da Boa Terra. Folheio agora uma coleção de valor inestimável: os boletins trimestrais que a antiga fábrica Suerdieck publicou no período de janeiro de 1949 a dezembro de 1959. Haja munição!

Já plantei milhares de cacaueiros, sou pai de dez filhos. Por isso, para completar minha caminhada, hora dessas quem sabe, tudo venha se transformar num livro. O livro dos famosos baianos.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

FM 311- Palha, Fumo & Seda

Os mais velhos por certo ainda se lembram dos cigarros de palha, também conhecidos como palheiros que assim eram chamados nas bandas gaúchas onde me fiz gente. Da mesma forma, também devem ter conhecido os cigarros feitos à mão, combinando fumo e papel. Estou falando dos anos 50 do século que já se foi. Eram formas de fumar que exigiam extrema paciência e habilidade.

Meu pai fumava palheiros, palha de milho envolvendo fumos desfiados, comprados em pacotes de alguns gramas. Destes fumos havia vários tipos e marcas disponíveis no mercado. Lembro-me que a palha era vendida em pequenos maços, com coisa ao redor de 30 unidades.

Como eu, hoje, fico apalpando meus charutos à procura do que se me pareça o melhor, mas ao final acabo fumando todos, da mesma forma, meu pai percorria as palhas à cata daquela que se lhe afigurasse a mais delicada. Não satisfeito, premia a palha escolhida com um canivete, apoiando-a e escorregando-a de encontro ao polegar esquerdo, para mais alisá-la e amaciá-la.

Meu avô fumava cigarros feitos à mão. Com auxílio de uma lâmina desfiava o fumo em corda, esfregava o tabaco recortado entre as mãos quase o esfarelando, envolvendo-o a seguir com papel de seda. Recordo-me dos maços deste papel. Acho que continham 50 folhas. A marca era Colomy impressa em vermelho sobre um fundo na cor amarela.

Depois de quase feito o cigarro, antes de concluir o envoltório, delicadamente, levava à boca a última parte do papel umedecendo-a com a língua, para concluir a operação de fechamento. Feito isto, apalpava-o uniformizando seu diâmetro.

Um e outro dosavam a quantidade de fumo, de acordo com suas preferências momentâneas. Um e outro de tais fumares eram apagões. Com extrema facilidade apagavam, sempre exigindo uma quantidade apreciável de fósforos para reacendê-los.

Meu pai e meu avô, nunca foram patrulhados por suas respectivas preferências. O primeiro, nos anos 60, trocou os palheiros pelos cigarros tradicionais. O segundo deixou de fumar quando andava pela casa dos quarenta e poucos anos.

Tudo sumiu. É verdade - por incrível que pareça - ainda haver palheiros, produzidos nas Minas Gerais, que vêm prontos para o uso. Nada a ver com os traços do passado.

Tudo sumiu é exagero. O papel de seda continua firme e forte. Quem duvidar disto que pergunte às tabacarias e casas especializadas. Nunca se vendeu tanto papel de seda, quanto agora.

Para quê? Para fazer baseados de maconha.

Novos tempos!

sábado, 29 de agosto de 2009

FM 310 - Acordai, brasileiros

Nunca estou só, nem assim me sinto quando, fisicamente ninguém esteja a me fazer companhia. Digo mais, nem quando circunstantes haja. Aprendi a recolher-me a meus pensamentos, desligando-me de tudo e todos. Para me fazer parceria nesta solidão auto exercitada, há muitos anos, trago meu charuto e, quase sempre, meu uísque. Coisas inúteis para muitos, mas que para mim são de ímpar utilidade.

Gosto deles. Gosto de quem gosta deles e sabe apreciá-los de forma comedida. Respeito os que não gostam. Já não posso dizer o mesmo dos que não gostam e patrulham os que gostam. Refiro-me àqueles que usando da máquina pública, mantida por impostos que pagamos eu, os meus charutos e os meus drinques, intentam, quixotescamente e a todo custo, mudar meus usos e meus costumes.

Tanto quanto tais senhores sabem, sei perfeitamente que o fumar e o beber representam riscos. Assumo-os. Mas sei também – e acho que isto eles não sabem, ou não querem saber – que há outros riscos coletivos, muito maiores, contra os quais não se lançam com tal empenho. Empenho puritano que me cheira atitudes politiqueiras.

Se determinada pesquisa revela que uma parte expressiva da população (leiam-se votos) é contrária ao hábito de fumar, vamos então “fazer média” com o eleitorado, como se diz na gíria.

Tais senhores escafedem-se pela tangente trazendo à baila tais secundárias questões, deixando ao largo, outras de real valor coletivo, tais como o crescimento desordenado e a redução das áreas verdes nas cidades, o preto asfalto espichando-se quilômetros afora, impermeabilizando o solo e viabilizando mais e mais automóveis, jogando monóxido de carbono nos narizes da humanidade indefesa.

Não vou falar da segurança pública, pois seria covardia de minha parte.

Onde andam os sistemas de transporte de massa e os metrôs? Salvador, por exemplo, com seus 2,9 milhões de habitantes, no mar brasileiro de 191 milhões de almas, há inúmeros anos intenta um metrô de superfície. Melhor dizendo, um mini-metrô. Será necessário realizar-se uma Copa do Mundo de Futebol para dotar a capital baiana de tal infra-estrutura urbana?

Tudo isto por quê? Porque muitos dos senhores gestores da coisa pública, por incapacidade ou conveniente cegueira na busca de votos fáceis, - vivemos movidos por eleições - deixam de lado a infra-estrutura e passam a atrair as atenções da mídia (leia-se população) para ações espetaculosas, caso da proibição do fumo associado à bebida. Ferem direitos individuais assegurados pela nossa Constituição. Se depender de mim, tais senhores vão acabar levando fumo nas próximas eleições.

Quando não, temos o caso de ações pontuais, como acontece na minha São Gonçalo dos Campos, onde praças e jardins – coisas corriqueiras em governos ambientalistas comprometidos – se convertem em ações de destaque da administração pública. Enquanto isso, fétidas águas servidas escorrem de casas em pleno centro da cidade, ruas afora.

Em meu recolhimento, tristeza e desencanto me invadem. As cortinas de fumaças impostas à opinião pública – por certo, bem maiores que as dos meus charutos – cegam-na, transformando-a em manada dócil, fácil de ser manejada.

Neste berço esplêndido, é claro que há vozes discordantes como a minha. Infelizmente ainda são poucas.

Acordai, brasileiros!